A
primeira competição na Boavista teve lugar em 1931, ano em que se
realizaram oito eventos em Portugal. Nesse ano, a prova seria vencida
por Fernando Palhinhas, aos comandos de um Singer, graças ao sistema de
“handicap”, usado pela primeira e última vez no nosso país.
A
Roberto Sameiro (Alfa Romeo 6C 1750), caberiam os louros de ser o
primeiro a ultrapassar a barreira da média de 100 km/h. Segundo os
dados da Imprensa da época, o número de espectadores oscilou entre as
10.000 e as 12.000 pessoas, o que comprova a popularidade do desporto
automóvel nesse tempo.
O
ano de 1932 seria marcado por algumas novidades: a primeira
participação feminina em provas automobilísticas nacionais, a de D.
Palmira Coelho, em Opel, e a alteração do regulamento do Circuito da
Boavista. Foi então adoptado o limite de tempo (90 minutos), para
encontrar o vencedor em cada um das categorias: Sport e Corrida. A
primeira seria vencida por Vasco Sameiro, ao volante do seu Invicta, e
a segunda, com enorme surpresa de todos, caberia a Roque da Fonseca, em
Bugatti.
O
ano seguinte, o Circuito da Boavista conheceria o fim da sua
configuração minimalista, voltando-se ao mesmo tempo ao esquema normal,
ou seja, um limite de 30 voltas para cada categoria.
No
entanto, o conturbado panorama político da época e, seguidamente, a
Segunda Guerra Mundial, ditariam um interregno desportivo que duraria
até 1950.
No
primeiro ano da década de 50, o Circuito da Boavista volta a reunir
novos bólides e novos talentos nacionais e estrangeiros, nomeadamente,
italianos, franceses e ingleses.
A
vitória nesta primeira prova pós-guerra da Boavista seria amealhada por
Felice Bonetto, em Alfa Romeo 412, seguido de Piero Carini, em
Osca-Maserati, e de Thomas Wisdom, em Jaguar XK 120.
Um
destaque muito especial para a participação de Yvonne Simon, em Ferrari
166 Berlinetta Touring, campeã francesa de ralis em 1938 e participante
nas 24 Horas de Le Mans em 1950 e 51, entre outras provas de prestígio
mundial. A piloto francesa terminaria a competição na 4ª posição da
geral, à frente do português Manuel Nunes dos Santos, em BMW 328, e do
italiano Emilio Romano, em Cisitalia-Abarth 204A.
- 1951 – Ano de glória para os portugueses
Neste
ano os portugueses tirariam a desforra face ao ano anterior. Com o
abandono de Bonetti, de novo com o seu 412, e suplantando todas as
esquadras estrangeiras, Casimiro de Oliveira, em Ferrari 340 America
Vignale, subiria ao lugar cimeiro do pódio. A velocidade máxima (pelo
velocímetro) atingida pelo seu bólide no final da Avenida da Boavista
foi de 235 km/h.
- 1953 – O grande passo internacional
Pode
dizer-se que 1953 foi um importante marco na história da prova
internacional portuense, e também do desporto automóvel mundial. No
início do ano havia sido criado o Campeonato Mundial de Marcas, em
Sport, tendo aderido ao mesmo os principais construtores como a
Ferrari, a Jaguar e a Lancia, assim como a Cunningham, a Alfa Romeo, a
Aston Martin e a Gordini.
O
ACP decidiu então criar uma segunda competição paralela ao GP de
Portugal, denominada Taça Cidade do Porto, destinada a viaturas Sport,
com cilindrada inferior a 1.100 cc.
Apesar
da presença de equipas oficiais como a Ferrari, a Lancia e a Jaguar,
bem como de outros pilotos e bólides de peso, os primeiros seis lugares
da geral seriam arrebatados pela “esquadra Ferrari” portuguesa, com
José Nogueira Pinto à cabeça. Este seria secundado por Casimiro de
Oliveira, Mário Valentim, Fernando Mascarenhas, Filipe Nogueira e Jorge
Seixas.
- 1955 – GP de Portugal regressa à Boavista
A
cidade Invicta voltaria a acolher, a par com o VI Circuito
Internacional do Porto, o Grande Prémio de Portugal em 1955. Uma vez
mais, uma carteira de nomes de primeiro plano e uma lista de inscritos
recheada de interesse e estreias, foram a nota de destaque. A duração
da prova passou para as 55 voltas, enquanto a corrida das cilindradas
inferiores a 1.500 cc subiu de 20 para 25 voltas.
Contudo,
este não foi um ano repleto de boas recordações, devido aos acidentes
graves de Sameiro, nos treinos – que ditaram o fim da sua carreira –, e
de Casimiro na corrida. O francês Jean Behra, em Maserati 300S,
colheria os louros da glória, subindo ao pódio ladeado por Masten
Gregory (Ferrari 750 Monza) e Duncan Hamilton (Jaguar D). Na Taça
Cidade do Porto, os Porsche 550 Spyder dominariam, mas o português
Filipe Nogueira conseguiria levar a melhor sobre os alemães Wolfgang
Seidl e Ernst Lautenschlager.
- 1956 – Ainda “Grand Prix”
Em
Junho de 1956 a cidade do Porto voltou a animar-se, desta feita com a
realização do VII Circuito Internacional do Porto – denominado GP do
Porto –, e a IV edição da Taça Cidade do Porto. A categoria Sport
desfilou no Circuito da Boavista pela última vez, dado que a SNR do ACP
já tinha o objectivo estratégico de trazer a Fórmula 1 para o país. A
Ferrari e a Maserati dominariam os seis primeiros lugares da geral.
Joaquim Filipe Nogueira, em Ferrari 750 Monza, manteve uma acesa luta
com Alfonso Portago, em Ferrari 875/4C, acabando por sofrer um
espectacular acidente. O piloto espanhol acabaria por vencer a prova,
tendo ainda estabelecido o recorde da pista em 160,219 km/h.
- 1958 – Chega o mundial de F1
A
Fórmula 1 chegou definitivamente ao nosso país em 1958, depois do
interregno de um ano, estando então o circuito do Porto a postos para
receber uma prova do campeonato do Mundo de Condutores. Coube em sorte
ao VII Grande Prémio de Portugal ser a antepenúltima corrida do
campeonato.
Apesar
dos muitos nomes sonantes e das muitas promessas do automobilismo
mundial que desfilaram pelo Circuito da Boavista, as atenções recaíram
sobre o duelo entre Mike Hawthorn e Stirling Moss, separados por sete
pontos, 30 contra 23, respectivamente. Moss (Vanwall VW10), precisava
desesperadamente de ganhar, enquanto a Hawthorn (Ferrari 246), lhe
cabia a árdua tarefa de gerir a sua vantagem.
Ao
ganhar a pole position Moss cedo mostrou as suas intenções, reforçadas
pelo facto de se ter adiantado na partida. Todavia, o seu rival não
baixou os braços e ultrapassou-o na 2ª volta abrindo cerca de dois
segundos de vantagem. Porém, na 6ª volta Moss logrou recuperar a
diferença de pouco mais de um segundo de diferença e ultrapassar o seu
rival, assumindo espectacular e definitivamente o comando da prova.
- 1960 – O fim de uma época
No
início da década de 60 o Circuito da Boavista recebeu o IX Grande
Prémio de Portugal, prova que marcaria a despedida do circuito dos
palcos do automobilismo nacional e internacional. Não obstante, pode
dizer-se que foi uma despedida em grande, pois os espectadores tiveram
o privilégio de assistirem à quinta vitória consecutiva de Jack Brabham
nesse ano, que se traduziu na conquista antecipada do seu segundo
título mundial.
Volvidos
45 anos sobre as últimas glórias vividas no Circuito da Boavista, a
paixão de um grupo de homens pelo desporto automóvel fez mover
montanhas, permitindo pôr de pé um projecto de âmbito nacional e
internacional: o Grande Prémio Histórico do Porto de 2005.
As
raízes da estrutura física não poderiam deixar de ser a zona da
Boavista e Circunvalação, sendo que muitas outras vieram a beneficiar
com a construção das infra-estruturas necessárias para o efeito.
Foram
precisos 16 meses para que o novo Circuito da Boavista pudesse receber
os bólides das classes HGPCA F1 Pré-1961 – Motor Dianteiro, HGPCA F1
Pré-1966 – Motor Traseiro, Pré-War Motor Legends, HGPCA GT/Sport –
Travões de Tambor, Lurani Fórmula Júnior, Gentleman Drivers GT and
Sports Endurance, Gentleman Drivers Sports Racing Challenge, bem como o
Troféu Datsun, o Campeonato Nacional de Clássicos Velocidade, Troféu
Nacional de Clássicos Velocidade e, a finalizar, o Masters GT/Taça
FPAK. No fundo, foram meses e meses de trabalho no terreno, mas não só,
para trazer até ao Porto uma variada panóplia de carros, que pudessem
proporcionar um grande espectáculo no regresso das corridas de carros
históricos ao Circuito da Boavista.
- Finalmente o triunfo do Lotus 18
De
8 a 10 de Julho de 2005 as emoções estiveram ao rubro, e muitos foram
os pilotos que marcaram épocas passadas que não quiseram faltar à
chamada e sentir a adrenalina de disputar uma prova inesquecível.
Uma
das mais espectaculares classes em prova foi HGPCA F1 Pré-1961. Embora
não fossem os mais rápidos, os Maserati, Bugatti, Cooper e Alfa Romeo
que estiveram no GP Histórico do Porto não deixaram ninguém
indiferente. Aliás, muitos já tinham corrido na Boavista nos idos anos
50.
Os
participantes no HGPCA F1 Pré-1966 foram igualmente alvo de muitas
atenções, sendo que Michael Schryver aos comandos do mesmo Lotus 18,
conseguiu finalmente o triunfo que John Surtees havia deixado fugir
neste circuito em 1960.
- Um espectáculo inesquecível
No
período entre as duas grandes guerras mundiais o panorama das corridas
de automóveis cresceu, sendo que a sua época dourada contou com
máquinas de referência como os Alfa Romeo, os Maserati e os Frazer
Nash, a título de exemplo. Note-se que quem acorreu ao Circuito da
Boavista em 2005 pôde ver essas relíquias do desporto automóvel bem de
perto.
Quanto
a espectacularidade, podemos ainda referir a Lurani – Fórmula Júnior,
as duas provas de Gentleman Drivers, os troféus Datsun e Nacional de
Clássicos de Velocidade, o Campeonato Nacional de Clássicos de
Velocidade e, a terminar com chave de ouro, o Masters GT/Taça FPAK.
Enfim,
um programa completo e de sucesso a marcar o regresso do Circuito
urbano da Boavista à alta roda do automobilismo mundial.
- Sucesso em crescendo no ano de 2007
E
se 2005 já havia marcado o regresso do Grande Prémio Histórico à cidade
do Porto, 2007 marcou a continuidade de uma grande variedade de provas
e um crescendo do sucesso, com a inclusão de provas novas, que só foi
possível pelo sucesso alcançado na edição anterior. As inscrições
bateram números record e o público aderiu em grande número a estas
provas, provando que as competições de carros antigos também despertam
grande interesse e que estas não são provas de segundo plano, como
alguns poderiam, erradamente, pensar.